O canto da figueira-branca

A figueira-branca de Ouro Branco/MG. Foto: @wilerjrxd

Escutei a figueira-branca cantar.
Corri a pegar papel e caneta
antes que aquela proeza acabasse.
Como pode cantar uma árvore?
Folhas, galhos, troncos, pendões cantam?
Vasos de seiva e raízes grossas gorjeiam?
Os sons, as vozes, os gritos, os cantos
me chegavam aos ouvidos vindos de todos
os seus lados, vencendo até mesmo os ruídos
inconvenientes e desgostosos dos veículos na rua.
Eram chiados ora oscilantes, ora constantes,
como as cigarras bem sabem pronunciar;
gritos agudos e compulsivos, ao mesmo tempo
reclamões e gargalhosos, bem parecidos com
aqueles das maritacas e dos papagaios;
sons harmônicos e doces,
tais quais os esbanjados aos ares pelos canarinhos;
sons mais austeros e curtos,
daqueles que só o bem-te-vi sabe soltar;
gorjeios dançantes e envolventes,
daqueles que saem pelo bico azul do sanhaço-cinzento;
sons mansos, breves e tímidos,
assim mesmo como os do pardal
(que atrás deles camufla sua esperteza sorrateira
em invadir as cozinhas das casas e beliscar
os pães e bolos mal escondidos);
gargarejos agudos e inebriantes,
que só o papa-capim sabe desatar dos minúsculos pulmões;
murmúrios roucos e contidos, quase inaudíveis,
como os da bela juriti.
Todos se misturavam
e se tornavam um só canto,
um só gorjear com frequências inconstantes,
o que singularizava aquela atônita beleza.
O canto da figueira-branca
me envolveu por toda aquela tarde,
até que as nuvens brancas empreteceram,
uma chuva forte ameaçou desabar
e a grande árvore se calou.

Wiler Antônio do Carmo Jr.

Originally published at https://www.pensamentosprofundos.com.

Engenheiro, desenvolvedor, escritor, questionador. “É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão.” instagram.com/wilerjrxd amazon.com/author/wilerjr

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